sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O Episódio de Josmar (parte 3 de 3)

...”. E Josmar, que não sabia ler, puxou novamente o papel dourado do bolso: “Sua professora disse... que está escrito aqui... nesse... bilhete... o nome de um lugar” Levaram um bocadinho de tempo para conseguirem comprar a passagem para o lugar escrito no papel. Desceram à plataforma 36, sem malas, apenas com a roupa-do-corpo. Subiram no ônibus de viajem, Josmar, o pedreiro, e sua filha, excitadíssima com a nova situação - nunca havia viajado com o pai. E em questão de hora e meia, estavam na estrada, apreciando pela janela do ônibus a paisagem dos morros verdes, com o sol do resto de uma manhã vigorosa e clara batendo em suas faces. A garotinha acordou de um amassado cochilo no banco do ônibus, e com seus olhos de bolinhas de gude, perguntou: “Pai, porque a gente ta viajando, afinal ?” Josmar virou para a menina, pensou durante alguns segundos, como que tentando buscar uma resposta para aquele ato tão incomum em suas vidas, e respondeu calmamente: “Por que está escrito no bilhete que eu achei”. A menina ficou olhando para o pai, esperando mais palavras, que não vieram. Fez nova pergunta: “Achou aonde, pai ?” Josmar, com um ar distraído, parecendo se recordar de algo, demorou a dar a resposta: “Este bilhete... é meu. Sempre foi meu. Me devolveram lá em baixo.” A garotinha franziu a sobrancelha, e antes que pudesse fazer nova pergunta, uma meia dúzia de vacas no descampado da estrada desviou a sua preciosa atenção. Depois de 4 horas, o ônibus finalmente parou. Josmar e sua filha haviam chegado ao seu destino. Desceram numa rodoviária pequena e simples. As ruas de terra do lugar abraçavam os quarteirões verdes, com algumas casas arejadas pontilhando aquele ambiente bem diferente da cidade de São Paulo. Caminharam e viram. Caiçaras passeavam de bicicletas. Cachorros andavam em bando. Crianças empinavam pipa. O sol, escaldante, anunciava o meio-dia. Comeram alguma coisa em uma lanchonete, e Josmar consultou novamente seu papel dourado: “Sua professora disse... que está escrito aqui... no papel... o nome de uma praia...”. Chegaram em uma linda e comprida praia. Quase deserta. A menina, pululava. Que dia ! Muito melhor do que ir pra aula. Foi brincar na beira do mar, enquanto Josmar, o pedreiro, se sentou debaixo de uma palmeira, na sombra. Olhou fixo para o horizonte, olhou fixo para o mar, lá no finzinho, no risco que separa a água do céu. Sentado, acomodado, Josmar esperou. Conferiu seu bilhete dourado, e esperou. A filha corria rodeando o pai, coletava conchas, brincava com o cachorro sarnento, pulava ondinhas. E Josmar, sentado, esperava. Não se mexeu, não quis molhar os pés, não brincou com a filha, não entrou em transes, não se distraiu. Apenas esperou, sentado, olhando para o horizonte. Parecia estar no lugar que era pra estar, desde sempre. O lugar escrito no bilhete. O sol começou a se por. A filha, muito esperta, foi atrás de sorvete e sanduíche. Voltou nos braços do pai. A noite veio, a garota perguntou: “E agora, pai ?”. Josmar respondeu: “Agora.... vâmo esperar...”. “Esperar o quê ?”- a filha indagou. Josmar não respondeu. A garota, já acostumada com a estranheza do pai, que economizava em palavras e explicações, se pôs a deitar no colo dele, e esperar também. Tarde da noite, Josmar continuava aguardando, sentado na praia, no mesmo lugar, com sua filha dormindo em seu colo. Eram iluminados pela luz da grande e charmosa Lua cheia. De tempos em tempos, olhava seu bilhete dourado, e depois tornava a olhar para o horizonte do mar. Madrugada. Josmar, o pedreiro, esperava na praia. E quando nada mais parecia que ia acontecer, quando o tempo se distraiu e virou apenas um cobertor de pensamentos, os olhos de Josmar foram tomados por um brilho emocionado. O pedreiro avistou algo no mar. Se levantou devagar, como que atraído pelo que vira, fazendo sua filha acordar. A espera havia terminado. Josmar viu um vulto que caminhava sereno em direção a areia, como se tivesse surgido do fundo do oceano. A cada passo que dava, mais a luz da Lua ia revelando sua silhueta. Parecia ser um homem surgido do mar. Um homem nu, grande e forte. Veio caminhando até Josmar. Os dois se encararam, não disseram nada. Apenas se abraçaram. Josmar olhou para a filha sonolenta e disse baixinho: “Filha, este é o meu irmão”. A garota olhou surpresa para o enorme homem nu que estava a sua frente. Ele sorriu para ela, que permaneceu em silêncio, confusa. Reparou que havia estranhas nadadeiras entre os dedos das mãos daquele homem. Olhou para os enormes pés e constatou que neles também haviam nadadeiras. Naturais. Como nos anfíbios que aprendera na escola. Josmar pegou o bilhete dourado pela última vez, o dobrou e entregou para a filha, junto com algumas notas de dinheiro. “Guarda este bilhete... para o pai,... tá ?”- pediu Josmar- “Pra sempre”. O pedreiro não disse mais nada. Apenas beijou o rosto da filha e foi caminhando com o irmão em direção ao mar, se despindo de suas roupas. E a garotinha observou em silêncio seu pai Josmar mergulhar naquele imenso mar iluminado pela Lua, junto com o enorme irmão, que agora pelo menos a filha conhecera. E os dois nadaram em direção ao horizonte. Até sumirem de vista. A menina não disse uma palavra. Não chorou. Apenas guardou bem guardado o dinheiro e o papel dourado em seu bolso. Sabia sem saber, que seu pai havia voltado para o seu lugar - e ele queria que ela soubesse disso. Seu coração de criança e filha, de alguma maneira, entendia e não perguntava o “porquê”. E Josmar, o pedreiro, nunca mais voltou.

5 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Caralho MOLLLLLLLLLLLL

Pode entrar pros melhores do Blog!

Perguntas que não querem calar:

-Porque ele gritou no buraco? porque viu o irmão? se sim, o que o irmão fazia em São Paulo num buraco?

-Quem escreveu o bilhete? O irmão? Como se ele tem nadadeiras????

-A menina voltou? Como? De onibus? A mãe espaerava na rodoviaria? A menina morreu?

-Josmar criou nadadeiras e saiu nadando?

-Agora o que mais intriga...PORQUE A MENINA FOI JUNTO?

-Josmar sabia que ia encontrar o irmão?

Aguardo respostas.

Muito loco, bem escrito, envolvente porém podiam ser mais capítulos, hein? Muitas coisas ficaram no ar.....

Ortz

8:53 AM  
Anonymous Anônimo said...

Muito bom, Mol!

Parabéns!

6:12 PM  
Anonymous Anônimo said...

Valeu, galera !

Quanto as perguntas: fica a cargo do leitor, imaginar e responder...

Aguardem por mais histórias molrabolantes...

MOL

7:20 PM  
Anonymous Anônimo said...

A menina foi junto porque o pai queria que ela soubesse onde ele tava, a origem dele. Por isso JosMAR? hehe

4:56 PM  
Anonymous Anônimo said...

Corretíssimo.
MOL

6:55 PM  

Postar um comentário

<< Home