sexta-feira, fevereiro 24, 2006

23# e o inferno astral......

Todo mês que antecede o seu aniversário é o seu inferno astral...Sempre foi assim. Mas tem números e datas que realmente desfavorecem e pioram o seu inferno astral. Sim, hoje eu completo 23 anos +1. E hoje, que dia é? 24. Fudeu, fazer 24 no dia 24 é demais. Não podendo ser diferente. este inferno astral começou tenso. Logo hoje, no dia que´em 1982 eu nascia. Acordo tarde, meio atrasado. Feliz porque quando abri a geladeira pra pegar o leite vi o bolo sinistroooooo que minha mãe preparou. Preparou pra mim e pra vocês, claro, logo mais o convite será oficializado pelo e-mail! Xarla uma Pontinnnnnn e pronto, vou trabalhar. Meu irmão implora a carona e eu fecho. Meu carro para na rua, há muito tempo já. Qunado eu desco para pegá-lo, o back! Puta que pariu, a traseira estava destruída......Caralho...........Que presente! O carro de tráz com tinta vermelha no para-choque já indicava o culpado. Fui olhar melhor o caro de trás e vi que ele também foi porrado atrás. E o carro mais de trás ainda também porrado. Estilo sanfona, uma merda gigante! Começop a procurar os culpados, e então sai um porteiro do prédio em frente ao carro e diz o que aconteceu. Uma senhora, sem noção, e possivelmente bebada, perdeu o controle do carro que bateu em um corsa no lado direito, o corsa subiu em um monza que socou direto na traseira de um pálio, o pálio foi contudo na traseira do meu KA, do lado esquero. Impossível o entendimento. Senhora sem noção. Mas aí vem a parte honesta do processo. A senhora que causou, deixou um recado no meu para-brisa, escrito: Desculpe, bati no seu carro. Por favor me ligue. Só faltou o : Parabéns! E olha que a mulher deixou o recado em todos os carros envolvidos. Isso! Ainda existe boas almas! Pelo menos a mina foi firmeza. Quando eu vi, já tinha sido feito B.O., o seguro acionado, e o que resta é ficar sussa e esperar o concerto. Como já tinham uns detalhes de amassado no carro, no fim das contas me dei bem, porque o seguro dela vai me pagar tudo numa boa oficina. Vou ficar um tempo sem carro, mas foda-se. Na quinta eu levo lá. Enqyuanto isso, vou saindo do meu inferno atrás, no ano em que faço 24 anos, no dia 24 e me dão uma porrada na traseira. Se eu não virei bicha ainda, sinal de que não viro mais. Mol! Já já começa o seu inferno astral, por favor não saia com o carro novo! Hoje em goma, bolo, breja, conoscos e cannabis. Quem leu é só chegar!

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

A Babilônia e as raízes do novo reggae BR

Bom, como nas últimas semanas estamos falando de reggae e suas vertentes, resolvi escrever um comentário sobre a nova cena (eu odeio essa palavra) que está se formando no Brasil. Vamos lá!... Pense rápido, qual é a capital do reggae no Brasil? Não, não é São Luiz. A capital é São Paulo. Isso mesmo, a Babilônia finalmente está dando frutos. E não tem nada de podre neles. São de sampa três grupos do gênero que acabam de lançar discos: Echo Sound System (Tempo Vai Dizer), Sapotone and The Love Rockers (idem) e Firebug (On the Move). Ao contrário do reggae tradicional (chamado de roots), que estava sendo feito no país nas últimas duas décadas e que parecia congelado no tempo (entenda como Tribo de Jah, Cidade Negra, Natiruts e Planta e Raiz), essas novas bandas trazem uma sonoridade mais abrangente, ampla. Tem para todos os gostos... Tempo Vai Dizer, por exemplo, vai do rocksteady até o hip-hop, passando pelo próprio roots, dub e dancehall. O coletivo abusa das ferramentas de gravação dos dias de hoje para imprimir uma sonoridade atemporal às suas músicas. Tanto que algumas das faixas parecem ter saído de algum estúdio de Kingstown, direto dos anos 60/70. Os vocais do Echo (cantados em inglês, francês e português) são turbinados por uma porrada de participações, entre elas: Funk Buia, Arcanjo, Pyroman, Gerenal Smiley e Jimmy Luv... Com a maioria das músicas em inglês, o Firebug também faz um passeio pela música jamaicana do século passado, dando ênfase ao ska e ao rocksteady (com algumas pitadas de dub). On the Move é o segundo disco dos caras e tem a participação especialíssima de B-Negão, na faixa Injustiça. Só para se ter uma idéia, o grupo foi idealizado pelo guru/multi-instrumentista/produtor Victor Rice, americano radicado em São Paulo que tem um currículo maior do que muita ficha criminal de político brasileiro. Já tocou baixo em não-sei-quantas bandas de ska, produziu inúmeros discos do gênero, acompanhou lendas jamaicanas como Desmond Dekker e participou do Dub Side of the Moon. Quer mais? Então toma! O cara também tem um cd solo, que foi gravado metade em São Paulo (estúdio El Rocha) e metade em New York. O disco, chamado In America, é quase uma aula didática para se entender a música feita na ilha caribenha... Nadando na contramão das duas bandas está a Sapotone and The Love Rockers e tem na mistura do reggae com o funk/rock/samba sua principal característica. Enquanto que um pé está na Jamaica, o outro insiste em permanecer fincado no Brasil, visível nas influências de Jorge Bem, Tim Maia e dos mais recentes Bonsucesso Samba Clube, Ultraman e Eddie. Apesar do nome, todas as letras (excelentes, por sinal) são cantadas em português pelo baterista e líder da banda Guilherme Sapotone. O disco é co-produzido por Daniel Ganja Man e vem com as participações de Max B.O. e Rodrigo Brandão... Vale lembrar de outros grupos que também bebem da fonte caribenha, entre eles: Digital Dubs (sound system carioca que apavora onde quer que passa), Monjolo (banda de Recife que mistura dub com outras vertentes eletrônicas), Adão Dãxalebaradã (compositor e poeta carioca que mistura dub com afro-beat, música popular brasileira e música de terreiro) e Dubversão (sound system paulista que faz todo mundo dançar). Para citar alguns. Esse post é dedicado ao meu irmão Ortiz, entusiasta da música jamaicana e que faz aniversário amanhã. Parabéns trutão!!! Um bom carnaval com muito reggae para todos nós. Jah Bless!

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Break On Through (to the other side)

Nas prateleiras gringas desde 2003, a Deck finalmente tira o atraso e lança no Brasil o cd Dub Side of the Moon, gravado por uma seleção com os melhores músicos do selo de reggae Easy Star. A idéia do projeto não é das mais simples: fazer uma releitura do clássico álbum Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, numa versão ragga-dub esfumaçada. É complicada porque estamos falando de um dos discos mais famosos da história do rock (vendeu mais de 30 milhões de cópias pelo mundo). Complicada também porque de uns anos para cá o álbum ganhou uma de espécie áurea mística, graças à divulgação via internet das coincidências (será?) com o filme Mágico de OZ. Na real o resultado tinha tudo para dar errado, contando inclusive com a zinca e cara feia dos mais fanáticos fãs da banda de rock progressivo. Mas o que aconteceu foi o contrário: sucesso tanto de público quanto de crítica (está na lista da Billboard desde que foi lançado). E não é para menos. A mistura entre a psicodelia do Floyd com a pegada do reggae é espantosa. Tanto que, ao final do disco, ficamos com aquela sensação de como ninguém tinha pensado nisso antes, tamanha sintonia. Claro que muito do sucesso do disco tem de ser creditado ao próprio Pink Floyd e suas composições universais e atemporais, mas isso não tira nem um pouco o brilho dessa nova versão. No encarte do cd, Lem Oppenheimer, dono da Easy Star, explica a força do disco original: “De todos os discos do Pink Floyd esse é o que melhor examina a condição humana. Começa e termina com uma batida de coração (o símbolo da vida), a narrativa segue um caminho que vai do nascimento (Breathe) até a morte (The Great Gig In The Sky) e uma eventual resolução espiritual (Eclipse), enquanto que explora as forças básicas que movem a humanidade: tempo, ou a falta dele (Time), movimento (On the Run), possessões materiais (Money), conflito (Us And Then) e loucura (Brain Damage)”. As músicas, nessa nova versão, seguem as mesmas melodias das composições originais. Mas as mudanças são muitas, principalmente na parte de instrumentos, vocais e efeitos (só as letras mesmo que ficaram intocadas). Composições ganharam outras linhas de baixos, novos vocais (toaters), baterias Nyabinghidelays, escaletas, pianos, metais e muitos, muitos efeitos. Tudo isso para otimizar a “viagem” do ouvinte, sem perder o clima do álbum. No melhor dubwize style de gravação, as músicas tiveram na sua mixagem 4 canais só para os efeitos, e eles fazem toda a diferença. A ordem das músicas também permaneceu a mesma, assim como o tamanho delas. Por conta disso também é possível ouvi-lo em sincronia com o Mágico de Oz. O encarte traz também uma explicação de como se pode ouvir o disco junto do filme (aquela história do terceiro rugido do Leão de MGM). Para coroar o lançamento do disco no Brasil só faltava mesmo um show por aqui. E não é que vai rolar? Dia 8 de maio, no Via Funchal, São Paulo. Fechando o post, adianto agora o próximo trabalho dos caras. Depois de pensar muito e de inúmeras sugestões feitas por amigos e fãs (entre elas estavam The Wall, London Calling e até Thriller) o Easy Star All-Stars promete para o final do ano uma releitura do disco (já é um clássico?) Ok Computer, do Radiohead. Vai chamar-se RadioDread. Se fosse qualquer outra banda esse disco também tinha tudo para dar errado (eu mesmo ia torcer o nariz), mas tratando-se de All-Stars é melhor esperar para ver, ouvir, sentir e viajar. Fica aqui a esperança que a Deck disponibilize no Brasil esse outro lançamento, bem como outros discos da Easy Star e de reggae em geral. I see you on the other side.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

GRATITUDE

Fica aqui um muito obrigado a todos que curtiram o show e a balada do último sábado na House. Valeu mesmo! Foi mto foda! du caralho! Shozin da Junky como há muito tempo não se via! Vibe máster da galera! Um obrigado especial para o Serginho, que cedeu o espaço, para a Ana, que cantou Consciência Terráqueos e para o Doug que quebrou tudo na guitarra. Esperamos que seja o primeiro de muitos shows desse ano. Junky Clan 2006. É nóiz!!!

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Então Vai...

Nunca sabemos quem lê esse blog, se quer sabemos se alguém lê, acho e espero que sim. De qualquer forma algumas pessoas (poucas) comentam neste blog e mesmo assim sendo anonimas. Não, isso não é uma reclamação. Até porque nem os caras dessa banda leem mais esse blog. Assim, há muito tempo, esse espaço passou a não ter mais o objetivo de atingir alguém, mas ainda existe por tradição. Se alguém ler todos os textos desde o início, tenho certeza que vai entender melhor essa banda, ou não entender porra nenhuma. Foda-se. Esse blog nunca teve regra e muitas coisas estão escritas aqui, mais de 350 textos. Se alguem leu ou não é detalhe, porque quem escreve não se preocupa muito com isso, eu pelo menos. Mas como anonimamente reclamaram, agora vai...... SHOW DA JUNKY CLAN ESSE SÁBADO, DIA 18 - NA HOUSE, R. BUTANTA, 198. OPEN BAR TOTAL, DJ´S E BALADA PEGANDO ATÉ UMAS HORAS! 20 CONTOS PRAS MINAS, 30 PROS MANOS.......MAS GARANTIMOS A VIBE.....COMPAREÇAM MAS COMAM BEM ANTES PORQUE SENÃO VÃO GORFAR A BILING...FIRMA? É ISSOOOOOO..............

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Raiz ou não?

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

O Tio do reggae!

Uma Noite pra ficar na história! Por vários motivos! Um show incomparável, casa agradável, som bom e uma banda sem noção! Ontem foi dia, quem viu, viu, quem perdeu se pá nunca mais vai ver. BURNING SPEAR, o tio do reggae! Roots no extremo, foi parceiro dos Deuses do reggae. Arrepiou quando o baixo entrou. Um naipe de metais sem noção, batera raiz extremo, baixo sem comentários e a voz do reggae original. Muitas brejas e a companhia essencial do Ruizinho e do mais velho do clã Treza, vibe muito boa. Um berbino no início e outro no Inesquecível momento em que fomos pra frente. Do nada o careca tatuado vira e fala, olha isso! é Uma ceda transparente. Eu olhei, peguei e já discordei:-Não viaja isso é plastico. Mesmo assim ele insistiu, depois de anos, delegaram a ele a missão de bolar o transparente! E como um diabinho no ombro eu pesei. Não viaja caião isso é plástico, você não vai conseguir virar. Pesei muito, falei umas 50 vezes pra ele desencanar e nada...Pareceu não me dar ouvidos...E fui acompanhando passo-a-passo o processo, ao som inigualavel do tio do Reggae! Ele foi virando e quando chegou na goma eu desacreditei, o beck colava!!!!! Como assim?!?!? Inéditoooooooooooo. Apesar do tempo longe do green, o experiente tatuado e careca, relembrou os tempos de equipe e bolou um cigarro, perfeito! E aí então veio o melhor momento da noite! Nossa!!!!! Um beck Transaprente, vou ter que acender.....e Lá ficou registrado, e mais uma vez, quem viu, viu, quem não viu se pá nunca mais vai ver. Eu vi e participei, o beck era de verdade! Não sei se foi a nova schin, ou o beck invisivel, mas depois dele eu fiquei mal. Do nada o meu nariz jorrou um sanguinho e eu fui pra trás para respirar um pouco. Acompanhando de longe o tio do reggae mandar seus últimos Irie!!Rastafari!! e sair fora deixando à todos em muitos bons lençois! Várias imagens ainda na cabeça, um bem estar incrível e a certeza de ter gasto uma grana que valeu a pena, ainda mais depois de matar a porcada num domingo qualquer!

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O Episódio de Josmar (parte 3 de 3)

...”. E Josmar, que não sabia ler, puxou novamente o papel dourado do bolso: “Sua professora disse... que está escrito aqui... nesse... bilhete... o nome de um lugar” Levaram um bocadinho de tempo para conseguirem comprar a passagem para o lugar escrito no papel. Desceram à plataforma 36, sem malas, apenas com a roupa-do-corpo. Subiram no ônibus de viajem, Josmar, o pedreiro, e sua filha, excitadíssima com a nova situação - nunca havia viajado com o pai. E em questão de hora e meia, estavam na estrada, apreciando pela janela do ônibus a paisagem dos morros verdes, com o sol do resto de uma manhã vigorosa e clara batendo em suas faces. A garotinha acordou de um amassado cochilo no banco do ônibus, e com seus olhos de bolinhas de gude, perguntou: “Pai, porque a gente ta viajando, afinal ?” Josmar virou para a menina, pensou durante alguns segundos, como que tentando buscar uma resposta para aquele ato tão incomum em suas vidas, e respondeu calmamente: “Por que está escrito no bilhete que eu achei”. A menina ficou olhando para o pai, esperando mais palavras, que não vieram. Fez nova pergunta: “Achou aonde, pai ?” Josmar, com um ar distraído, parecendo se recordar de algo, demorou a dar a resposta: “Este bilhete... é meu. Sempre foi meu. Me devolveram lá em baixo.” A garotinha franziu a sobrancelha, e antes que pudesse fazer nova pergunta, uma meia dúzia de vacas no descampado da estrada desviou a sua preciosa atenção. Depois de 4 horas, o ônibus finalmente parou. Josmar e sua filha haviam chegado ao seu destino. Desceram numa rodoviária pequena e simples. As ruas de terra do lugar abraçavam os quarteirões verdes, com algumas casas arejadas pontilhando aquele ambiente bem diferente da cidade de São Paulo. Caminharam e viram. Caiçaras passeavam de bicicletas. Cachorros andavam em bando. Crianças empinavam pipa. O sol, escaldante, anunciava o meio-dia. Comeram alguma coisa em uma lanchonete, e Josmar consultou novamente seu papel dourado: “Sua professora disse... que está escrito aqui... no papel... o nome de uma praia...”. Chegaram em uma linda e comprida praia. Quase deserta. A menina, pululava. Que dia ! Muito melhor do que ir pra aula. Foi brincar na beira do mar, enquanto Josmar, o pedreiro, se sentou debaixo de uma palmeira, na sombra. Olhou fixo para o horizonte, olhou fixo para o mar, lá no finzinho, no risco que separa a água do céu. Sentado, acomodado, Josmar esperou. Conferiu seu bilhete dourado, e esperou. A filha corria rodeando o pai, coletava conchas, brincava com o cachorro sarnento, pulava ondinhas. E Josmar, sentado, esperava. Não se mexeu, não quis molhar os pés, não brincou com a filha, não entrou em transes, não se distraiu. Apenas esperou, sentado, olhando para o horizonte. Parecia estar no lugar que era pra estar, desde sempre. O lugar escrito no bilhete. O sol começou a se por. A filha, muito esperta, foi atrás de sorvete e sanduíche. Voltou nos braços do pai. A noite veio, a garota perguntou: “E agora, pai ?”. Josmar respondeu: “Agora.... vâmo esperar...”. “Esperar o quê ?”- a filha indagou. Josmar não respondeu. A garota, já acostumada com a estranheza do pai, que economizava em palavras e explicações, se pôs a deitar no colo dele, e esperar também. Tarde da noite, Josmar continuava aguardando, sentado na praia, no mesmo lugar, com sua filha dormindo em seu colo. Eram iluminados pela luz da grande e charmosa Lua cheia. De tempos em tempos, olhava seu bilhete dourado, e depois tornava a olhar para o horizonte do mar. Madrugada. Josmar, o pedreiro, esperava na praia. E quando nada mais parecia que ia acontecer, quando o tempo se distraiu e virou apenas um cobertor de pensamentos, os olhos de Josmar foram tomados por um brilho emocionado. O pedreiro avistou algo no mar. Se levantou devagar, como que atraído pelo que vira, fazendo sua filha acordar. A espera havia terminado. Josmar viu um vulto que caminhava sereno em direção a areia, como se tivesse surgido do fundo do oceano. A cada passo que dava, mais a luz da Lua ia revelando sua silhueta. Parecia ser um homem surgido do mar. Um homem nu, grande e forte. Veio caminhando até Josmar. Os dois se encararam, não disseram nada. Apenas se abraçaram. Josmar olhou para a filha sonolenta e disse baixinho: “Filha, este é o meu irmão”. A garota olhou surpresa para o enorme homem nu que estava a sua frente. Ele sorriu para ela, que permaneceu em silêncio, confusa. Reparou que havia estranhas nadadeiras entre os dedos das mãos daquele homem. Olhou para os enormes pés e constatou que neles também haviam nadadeiras. Naturais. Como nos anfíbios que aprendera na escola. Josmar pegou o bilhete dourado pela última vez, o dobrou e entregou para a filha, junto com algumas notas de dinheiro. “Guarda este bilhete... para o pai,... tá ?”- pediu Josmar- “Pra sempre”. O pedreiro não disse mais nada. Apenas beijou o rosto da filha e foi caminhando com o irmão em direção ao mar, se despindo de suas roupas. E a garotinha observou em silêncio seu pai Josmar mergulhar naquele imenso mar iluminado pela Lua, junto com o enorme irmão, que agora pelo menos a filha conhecera. E os dois nadaram em direção ao horizonte. Até sumirem de vista. A menina não disse uma palavra. Não chorou. Apenas guardou bem guardado o dinheiro e o papel dourado em seu bolso. Sabia sem saber, que seu pai havia voltado para o seu lugar - e ele queria que ela soubesse disso. Seu coração de criança e filha, de alguma maneira, entendia e não perguntava o “porquê”. E Josmar, o pedreiro, nunca mais voltou.