quarta-feira, janeiro 25, 2006

O Episódio de Josmar

(PARTE 1 DE 3) Quando todos voltam bêbados para casa, com seus carros musicando as ruas tortas da madrugada de São Paulo, respirando de farol em farol - aqueles pedreiros trabalham. Horário alternativo. Com uniformes amarelo-vivo, consertando a calçada, tapando algum buraco para a prefeitura, manuseando máquinas que nunca vimos, fazendo algo que nunca sabemos exatamente o que é – na madrugada de São Paulo. Como se estivessem numa barulhenta bolha temporal à parte, no meio do silêncio entrecortado da noite asfaltada. Quando todos dormem ou caçam um par ou simplesmente bebem, eles trabalham. Os pedreiros de uniforme amarelo. Josmar era um desses pedreiros. Seu episódio começou numa noite dessas. Um pedreiro gordo e estranho. Por fora nem era tão estranho. Só que suas mãos eram enormemente grandes. E a barba, nunca lisa, nunca cheia, sempre-rala, estagnada. Seus olhos pretos serenos é que de vez em quando entravam em transe, sempre durante as partidas de dominó no final do expediente das construções em que trabalhava durante o dia. Zé e Quinhão já estavam acostumados. Sempre que uma jogada exigia um pouco mais de atenção, Josmar parecia entrar em uma outra freqüência, e depois voltava. Assim, em segundos. Almoço no boteco, Josmar só pedia peixe. Nada de carne, bife, feijoada.Todo dia, peixe. E não era de conversa. Não era de Corinthians, de Palmeiras, de nada. Mas entendia de ser pedreiro. Trabalhava compenetrado. E tinha meia dúzia de amigos. Em casa, uma esposa, um filho de 3 e uma linda filha de 9. Nunca trouxe se quer um parente para visita, desde que casou. Seus filhos nunca conheceram os avós paternos, nem tios. No começo, a esposa perguntava, mas depois acostumou. Josmar era um bruto quase-mudo. Não dominava a arte das palavras. E tinha um hábito estranho: toda sexta-feira que o Globo-Repórter exibia reportagens sobre animais, praias, lugares, Josmar assistia em silêncio, do começo ao fim. E durante alguns segundos, seus olhos entravam em transe, como nas partidas de dominó. Enquanto sua família se entediava, Josmar parecia se transportar para o rio da Amazônia junto com o repórter. Foi que houve uma terça qualquer que Josmar saiu com seu uniforme amarelo para um trabalho de madrugada. Os pedreiros se reuniram, montaram os cones em um cruzamento de pouco movimento, e abriram o bueiro. Concerto de um cano do esgoto. Estavam alegres, os pedreiros, comentando o Corinthians e São Caetano do Pacaembú de domingo último. Josmar, claro, em silêncio. Zé desceu com Gilmar, capacetes com lanternas, com cuidado. Era um serviço nas entranhas subterrâneas da cidade. Quinhão quis ficar: “Não gosto de buraco, não. Fico aqui pra ver o trânsito”. Josmar esperou também. No silêncio do asfalto. Minutos se passaram. Josmar preparou seu equipamento. Zé e Gilmar subiram com mãos sujas: “Vai lá Josmar, já marcamos o cano. Faz o remendo”. E desceu Josmar para o esgoto da cidade. Zé avisou: “Só que ta meio longe. Anda um pouco, esquerda, vai ver a sinalização”. Josmar foi, subterrâneo, bruto, quase-mudo. Em cima, minutos correram, conversas sobre novela, sobre Lula, sobre mulher. De tempos em tempos, um carro passava, pondo vírgula no papo. Esperavam. Confiavam em Josmar para o serviço. Tudo muito calmo. Até ouvirem um grito grave e assustadoramente longo lá de baixo, que ecoou na brisa quente da superfície. Se entre-olharam. Um grito de Josmar ?

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Josmar teria se transformado em Josrio???

5:45 PM  
Anonymous Anônimo said...

Josmar era o que? Um peixe? um boto reencarnado......? Um hobbit amaldiçoado? Mão grandes?

11:01 AM  

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