O Episódio de Josmar (parte 2 de 3)
Um grito de Josmar ?
Esperaram mais alguns segundos quietos, se perguntando com olhares, se tinham mesmo ouvido aquilo. Quinhão se manifestou primeiro: “Josmar ? E aí, cumpadre ?!” Silêncio. Zé colocou seu capacete na cabeça e agachou até o bueiro. Gritou por Josmar. E não demorou muito para ouvirem o gordo pedreiro subindo pela escada.
Josmar voltou a superfície, pesado, sob o olhar apreensivo dos colegas. Estava com uma mão suja, e outra mão inquieta dentro do bolso, mas sem nenhum machucado. Só que seus olhos estavam novamente em transe, mas pela primeira vez, parecia que se não fosse pelos chamados e chacoalhões dos colegas, Josmar não iria voltar à consciência nunca mais.
Mas voltou.
Ficou quieto. Apesar de ser um quase-mudo, todos esperaram Josmar falar. O que acontecera lá em baixo ? E ele olhou um por um, afastou Zé de sua frente, mirou um bar na esquina oposta e caminhou devagar até ele, cruzando o calmo cruzamento - na madrugada de São Paulo. Zé quis acompanha-lo, Gilmar não deixou. Esperaram.
O gordo pedreiro, com seu uniforme amarelo, mão esquerda no bolso, foi entrando no bar. Do balcão, um velinho grisalho bebendo sua maria-mole o observou chapado e curioso. Josmar parou no balcão, pediu um copo d`água da torneira. A garganta seca. Antes de bebê-lo, avistou a porta do banheiro.
Dentro do estreito banheiro pixado, o gordo pedreiro encostou na pia e lavou o rosto. Esfregava a água na cara. A torneira aberta, Josmar se encarou no espelho, a respiração fazia seu peito se movimentar repetidamente. Ele olhou para baixo, puxou algo de seu bolso que tinha trazido dos subterrâneos: um papel metálico dourado com um punhado de palavras escritas.
Josmar era analfabeto.
Não conseguiu decifrar nada daqueles símbolos estranhos. Mas sabia que aquilo agora era seu.
Passaram-se dois dias, o acontecimento virou piada entre os colegas. Riam, mas ainda não sabiam o que de fato Josmar tinha visto naquela parte do esgoto da cidade (tampouco mostrara aos colegas o papel dourado). Não quiseram insistir. Era só mais uma estranheza do pedreiro. Só que, depois daquela noite, Josmar aparentava estar mais distraído do que de costume. Já não trabalhava direito.
No terceiro dia, Josmar não apareceu para terminar de asfaltar uma parte da Av Brasil. Naquele dia, quis acompanhar sua filha de 9 anos à escola. Tarefa que normalmente era da mãe. Não bastou levar a filha até a portão do colégio, quis ir com ela até a classe. E foram, um bruto quase-mudo de mãos dadas com uma garotinha que era de se duvidar ser sua filha, de tão graciosa- seus cabelos dançavam contentes a cada passo. Quando chegaram na porta da sala, Josmar não foi embora. Esperou a professora entrar e, com um esforço visível para construir uma frase, pediu para que ela lhe fizesse um favor antes de começar a aula.
“Professora... vem cá comigo... um minuto. Quero te mostrar uma... coisa”- e virou-se para a menina: “Espera aqui, filha”. A garotinha viu o pai caminhar com a professora até o finzinho do corredor do colégio. Viu ele sacar o papel dourado do bolso (que brilhava ainda mais quando refletia a luz vinda das janelas) e mostrar para a sua professora, que o leu em voz baixa, com sobrancelhas intrigadas. Depois, a mulher devolveu o papel, e disse algo para o pedreiro. Josmar, analfabeto, deve ter ficado uns vinte segundos parado, reflexivo, na frente da professora.
“Mãe, hoje o pai falou com a psôra !”- disse a garotinha, de noite, em casa. A esposa de Josmar estava preocupada. Seu marido estava mais estranho do que o normal. Num descompasso com a vida normal. Não conversava nem mais o pouco que antes conversava. Não encostava mais na mulher, não comia direito. Quase grudou lentamente o rosto na TV quando viu uma simples propaganda de protetor solar que se passava no mar de uma praia.
Dia seguinte, era o aniversário de Josmar. Fizeram um bolinho, apagaram a velinha. O pedreiro sorriu para a filha, e só. Nem o bolo comeu. Como de costume, nenhum familiar seu ligou. Nem pai, nem mãe, nem primo, nem ninguém. Antes de dormir, abriu a porta de casa e deu uma saidinha lá fora. Sua mulher o observou. Josmar estava parado, olhando os céus. Puxou o papel dourado (que trouxera dos subterrâneos) de dentro do bolso, olhou-o mais uma vez e voltou a fitar as poucas estrelas entre nuvens avermelhadas da noite de São Paulo. Ficou uns dez minutos lá fora e depois entrou. Deu um beijo demorado na bochecha de sua mulher (que teve que se conter para não chorar pelo gesto raro do marido), foi até o quarto de sua garotinha e disse, pausadamente: “Amanhã... você não vai pra escola, ...tá? ...Vai vir comigo”. A garotinha sorriu, pensando com olhos de fantasia, se ajeitando toda para bem-dormir, se perguntando curiosa: o que é que iriam fazer no dia seguinte ?
Josmar acordou a filha tão cedo que a menina não sabia nem se ainda era dia ou noite. De fato, era meio-a-meio. Mas, assim, em questão de um rápido café da manhã, a noite virou dia por inteiro, e Josmar levou a filha sonolenta para fora de casa, sem nem acordar a esposa.
Desceram a ladeira para pegar a condução, o pedreiro e sua pequena garotinha, que o acompanhava, quase correndo.
Pegaram um dos únicos ônibus que Josmar distinguia pela cor e formato das letras. A filha curiosa, perguntou para o pai: “Onde é que a gente ta indo ?” Josmar não respondeu. Apenas puxou o papel metálico do bolso. A garota espiou pela segunda vez o papel, o reconhecendo pelo brilho. Pediu para ver, em vão. Se aborreceu. Desceram do ônibus, pegaram um metrô. Em dois cochilos da filha, já tiveram que descer novamente. Estavam agora em um local onde Josmar sentia que não conseguiria se orientar sozinho: a rodoviária Tietê. Sentia também que estava no destino certo, mais perto do que precisava fazer.
E foram os dois: o bruto, pedreiro, pesado e analfabeto, quase mudo, de mãos dadas com sua esperta e graciosa filha, caminhando por entre todo tipo de pessoas, que chegavam de malas, descontentes, ou partiam, eufóricas. O pedreiro Josmar resolveu então contar pra filha: “A gente vai viajar... Eu e você. Eu preciso de sua ajuda... com as palavras...”. E Josmar, que não sabia ler, puxou novamente o papel dourado do bolso: “Sua professora disse... que está escrito aqui... nesse... bilhete... o nome de um lugar”...


1 Comments:
ele foi pra praia...? Foi nadar...até aí tudo certo, mas a menina? o que tem a ver? estranho........ escreve logo esse fim porra
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