AINDA SEREMOS OS MESMOS E VIVEREMOS COMO OS NOSSOS PAIS
Ano: 2032
Local: a sala da minha casa
E depois de umas duas horas, ela chegou em casa. Chovia lá fora. A menina entrou, com seus 14 anos, alta, bonita, olhos verdes-vivos. Minha filha. Vestia uma capa de chuva sintética auto-absorvente rosa. Entrou devagar, passou a mão no cachorro, um pouco aflita, depois veio em minha direção, me olhando a passos meio-medrosos, pescoço curvado - mas não desviou o olhar. Pelo contrário, olhava firme pra mim, quase me desafiando. Não me beijou, apenas se sentou no sofá-geléia, ainda de capuz na cabeça. E eu de pé, bebendo meu wisky, depois de uma semana viajando a trabalho.
- "Senta aí, pai" - disse ela -"Preciso conversar com você".
Minha mulher passou por mim, me deu uma olhada que parecia pedir complascência, e foi pra cozinha, em silêncio.
-"A mamãe já viu"- minha filha falou pra mim, sentada, ainda com a capa de chuva, já quase seca.
-"Viu o quê ?"- perguntei, me sentando no sofá-espuma.
Ela me olhou, sua cabeça queria baixar pro chão, mas seus olhos continuavam fixos em mim -"Todas as minhas amigas já fizeram. Quer dizer, quase todas, menos a Gal, porque ela tem mais medo..."
-""Do quê, porra ? Medo do que ?"
-"Não fica bravo, pai. Eu fiz com o crédito que eu juntei..."
O que ela estava tentando me dizer afinal ?
-"Pai, eu fiz faz uma semana, enquanto você tava viajando. Mas hoje eu vou... te mostrar, porque a mamãe me convenceu. Porque eu não gosto de esconder nada, né..."
Foi então que tudo se encaixou na minha cabeça: minha filha tinha feito merda. Uma merda que ela já tinha comentado comigo, uma merda que já tinha rendido uma discussão em algum jantar a mêses atrás. Achei que era passageiro, coisa de adolescente.
-"Eu não acredito. É o que eu tô pensando que é ?"
Ela moveu a cabeça em sinal de positivo.
-"Eu não acredito. Não acredito. Aonde ? Aonde você fez ?"
Ela me olhava, franzindo-se toda. Não respondeu.
-"E pra arranjar emprego, dona ? Como é que você faz agora? Por que não tem volta... é pra sempre, até você ficar velinha !"
-"Eu sei, pai"
-"E você acha isso bonito ?"
-"Você ainda nem viu, pai! Eu acho, sim, se não eu não faria!".
-"Então vai ! Mostra logo !"
E ela se levantou. Minha filha. Olhou para o chão pela primeira vez na nossa conversa. Mas estava de pé, me desafiando. Estava de pé, desafiando toda a minha tolerância. Minha filha, de pé, desafiando toda a minha geração. Ela levou as mãos à cabeça para retirar o capuz de chuva que cobria seus lindos cabelos. E eu vi: um par de chifres implantados na cabeça. De três ou quatro centímetros cada. Ossos. Implantes ósseos, na cabeça da minha filha, pra sempre. Não consegui olhar pra aquilo por mais de 5 segundos. Dei um enorme gole no meu wisky e disse a ela que eu tinha perdido o apetite.
-"Janta só você e sua mãe"
-"Você nunca vai entender, pai. Porque você é velho."
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O texto acima não é uma ficção. Ele realmente vai acontecer, com um amigo do amigo do meu amigo. Isso pra mostrar que, se você acha seu pai ou sua mãe caretas, não se irrite: você ainda vai ser um. Você fez uma tatuagem na canela, eles te execraram, seu avô falou que você agora é o neto mais feio da família, e você não compreende porque tanta comoção, tanto barulho, tanto impacto, tanta balburdia, por causa de uma simples ilustração de um diabo cuspindo fogo e chicoteando a bunda de uma enfermeira semi-nua na sua perna peluda.
Chame-os de caretas. Você gostaria que eles tivessem 10% da compreensão que você terá com os seus futuros filhos. Mas em 2032, lembre-se de ser compreensivo quando sua filha chegar em casa com uma prótese verdadeira de um rabo de diabinha implantada logo acima de suas nádegas. Não é viagem. No Japão a moda agora são implantes ósseos, de chifres, ou para aumentar a maçã do rosto, pra ficar tipo o Mickey Rourke no filme Sin City.
E pense nas drogas. Hoje já existem pesquisas no Reino-Unido, onde se fabricam chips para serem implantados no cérebro dos seres humanos. Esses chips recebem sinais elétricos da internet e fazem com que seu cérebro absorva informações artificiais externas. Se nosso cérebro trabalho com informações eletro-químicas ( e as drogas hoje são apenas químicas) por que não existir no futuro, drogas elétricas ? Já imaginou, seu filho chapado, plugado no computador, falando com voz lerda: "Mas pai, é só um chipizinho aí. Não faz mais mal do que a bebida..."
Tudo isso pra dizer o que ?
Vamos lotar os nossos corpos de tatuagem, sim ! Vamos fumar maconha até queimar nossos últimos neurônios, sim ! E vamos chamar os nossos pais de caretas ! "Velhos caretas da porra !"
Mas sabendo que "ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais".
E sabendo que nossos filhos vão escutar as nossas músicas também.
Mol


1 Comments:
Postei o comentario sobre esse texto no outro post... rs. Além de careta sou lesada.
Seguinte, pra todos vocês junkys e amigos da junky. Quinta, 12 de janeiro, é meu aniversário e os convido pra uma breja gelada.
Platibanda - Rua Mourato Coelho, 1365 Vila Madalena
Beijo
Simone
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