quinta-feira, novembro 10, 2005

Fabulosa

Passeava pelo mato uma jaguatirica. Certa de que o caminho para o dourado era aquele, o mais sinuoso. Durante muito tempo perdida, longe da trilha, sobreviveu. Feliz até. Até saber que o caminho a ser alcançado era muito mais ingrime do que imaginava no mais profundo de seu sonho. Parou debaixo da subida, olhou pra cima e pensou em desistir. E pensando, ela começou a caminhar, andava, pensava, parava, e voltava a andar. Quando se deu conta já estava na metade do caminho. Satisfeita com a sua própria vontade, ela cansou. E a idéia de subir mais aquela montanha enorme aflingia. O tempo começou a fechar, a chuva caiu e o enxarco tomou conta. Se segurando em árvares e troncos ela, por um minuto, pensou que talvez não devia ter subido até lá. Hesitou. A noite chegou, a cabeça voou e o frio alastrou. A caminhada já deixara marcas que o tempo não seria capaz de apagar. A satisfação por ter chegado a tal ponto já lhe agradava. Os netos já teriam história pra ouvir. Mas, na verdade o caminho estava na metade, e a próxima parte prometia muitas dificuldades, o tempo não dava tregua. Amanheceu com a tempestade. A angústia dominava, o tempo piorava e ela ficou parada. Com a certeza de que o dourado lhe traria a paz e fartura, apesar da tensão, ela por várias vezes pensou em voltar. Só que o que era não reparou é que voltar, ou melhor, descer, seria tão ou mais dificil que subir. E descer, faria com que desconsiderasse toda a glória da subida, e isso a encomodava. Dias e dias passaram e lá, no mesmo local ela continuou a subir, bem devagar, pensando sempre em descer. Foi subindo, desanimada, o sono chegou, e na encosta do morro, num tronco ele dormiu. Sonhou. Sonhou que desceu. E chegando lá embaixo as cores estavam mais opacas, mas a vida continuava, como sempre, na rotina. Deu um pulo e acordou. Decidido a voltar. E não pensou muito e começou a descer. Passou pelas barreiras que havia derrubado e carregou-as para baixo pra mostrar aos netos do seu pseudo-sucesso, do seu fracasso na verdade. E eram recordações belíssimas. Chegando lá em baixo, o dia no fim, apontava o seu cansaço. Ele dormiu. E novamente sonhou. Sonhou com o dourado. Sonhou que de onde ele estava faltava pouco pro dourado, mas esse caminho era sinistro. Acordou no susto. E preferiu esquecer do caminho. Viveu a vida inteira imaginando o que teria acontecido se ele tivesse subido. E esse sentimento a perseguiu durante todo instante. Teve filhos. Teve netos. Teve a chance. Próximo aos 80 anos faleceu. Os netos dispostos a realizar o pedido da vó, a carregaram até onde ela pediu pra ser enterrada, no dourado. Vislumbrados com a vista, os cinco netos, que subiram rapidamente até lá, enterraram a vó, rezaram, e por lá ficaram. O tempo mudou, a chuva não deu tregua por meses, e a montanha foi submersa. O dourado agora era a planície. Todas as marcas deixadas pela avó foram apagadas. De longe um dos netos avistou um morro com o topo brilhando. Sem hesitar e devagar começaram a subir, o tempo fechado não ajudava e os netos na encosta do morro dormiram. Não sonharam.

6 Comments:

Anonymous Anônimo said...

A vida é sonho. A vida passa. Os sonhos passam. A memória fica. Isso que é loco.

Não se sabe o que será mas certeza que sera bom!!


é bem isso.

4:24 PM  
Anonymous Anônimo said...

O amor é fogo que arde sem se ver....é ferida que dói e não se sente....

4:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Mol...Princed

8:47 PM  
Anonymous Anônimo said...

pavio se escreve com "o", não "l".

5:56 PM  
Anonymous Anônimo said...

pasquali sabe nada
pavio acende

12:15 AM  
Anonymous Anônimo said...

"E descer, faria com que desconsiderasse toda a glória da subida, e isso a incomodava"

Vcs são foda.

12:25 AM  

Postar um comentário

<< Home